Clínica do resto, clínica do excesso, clínica da borda: uma experiência do Janela da Escuta.

Clínica do resto, clínica do excesso, clínica da borda: uma experiência do Janela da Escuta.

$15.24 USD

Shipping for zipcode:

Shipping Methods

Protected purchase
Your data taken care of throughout the purchase.

Uma janela que olha para o horizonte

 

Damasia Amadeo

 

O que quer dizer – e quais implicações têm para a psicanálise de orientação

lacaniana, que segue o legado iniciado pelo sulco traçado por Freud na cultura – criar

uma janela da escuta dentro da Universidade?

Sabemos que a Universidade é atravessada pelo responde ao discurso

universitário. E quanto a este discurso, Lacan nos adverte sobre o saber no lugar de

comando, mas também sobre a produção de um sujeito dividido sob o imperativo de ter

de saber sempre um pouco mais.

Por isso, a experiência clínica, como um laboratório de investigação do sujeito em

sua singularidade, apresenta-se neste livro como um oxímoro afortunado que honra a

psicanálise. E honra a Universidade.

Freud buscava a todo custo incluir a psicanálise na ciência de sua época. E Lacan

dobrou a aposta quando disse que, se os critérios da psicanálise não se ajustavam aos da

ciência, então era preciso criar uma ciência que incluísse a psicanálise.

É excessiva essa aspiração lacaniana com respeito à psicanálise e à ciência? Não,

não é excessiva. O excessivo se apresenta hoje de outra maneira. Assistimos, em nossos

dias, a uma clínica dos excessos, como indicam os autores desta coletânea, na qual

teorizam, refletem, mostram sua clínica e tiram conclusões.

O excesso está por toda parte: excesso de consumo; excesso de demanda; excesso

de diagnóstico; excesso de medicalização; excesso de violência nas formas de

discriminação, de abuso de poder, de um suposto direito de se desfazer do diferente;

excesso de drogas, de angústia; excesso de alimentação; excesso de tecnologia; excesso

de informação – e a lista continua.

E o que se quer dizer quando aqui se afirma que o adolescente é um especialista,

um expert de si mesmo? Não se quer dizer que ele seja um especialista que sabe sobre “si

mesmo” – além de que sabe muito pouco fazer “consigo mesmo”.

Janela da escuta lhe propõe algo diferente. Oferece-lhe a possibilidade de indagar

na palavra e em seus efeitos, de ser salvo pela palavra, como diz um jovem trans que

 

frequenta o espaço de atendimento. A palavra posta a circular lhe permite abrir outras

janelas e vislumbrar outras paisagens; permite-lhe pintar, por si mesmo, novos cenários,

diferentes daqueles que está acostumado a ver através de outras janelas: panópticas,

moralistas, acusatórias, carcerárias.

E é graças a essa palavra e a essa escuta inédita, oferecidas por uma janela

artesanal – mas nem por isso menos firme, nem menos assentada –, que ele poderá

entrever o horizonte. E então, sim, poderá aprofundar seu saber-fazer a partir da palavra

liberada, que lhe possibilita a escuta de um Outro que não é especialista, que não é expert

em nada. Então, sim, ele, ou ela, ou como deseje e mais lhe agrade nomear-se, poderá

tornar-se especialista de sua falta, especialista do vazio que contorna o excesso

manifestado no sintoma, especialista da tenacidade em não se deixar aprisionar numa

nomenclatura, num diagnóstico, numa nomeação escandalosa por sua insipidez, ominosa

por sua temeridade.

Os adolescentes encontram no Janela da Escuta um espaço em que não são

compreendidos, mas escutados. Porque, como diz Lacan – e isso é retomado de múltiplas

maneiras nestas páginas –, o adolescente, o que menos quer, o que menos deseja, é ser

compreendido. Ele quer ser respeitado em sua palavra e não ser infantilizado quando o

outro se dirige a ele. Quer menos ainda ser julgado, coisificado ou protocolizado no novo

vade mecum da psiquiatria em voga.

Este é um livro que reflete a clínica psicanalítica recolhida nas bordas, nas zonas

periféricas, nos lugares de descarte, nos sítios saturados de expulsão social. E é aí que ela

se instala, cria seu lar, abre sua porta e corre as cortinas para dar ar e luz à sua janela:

lugar de escuta, de livre circulação da palavra.

Em Milão, criam-se outros dispositivos voltados a tratar as novas formas do

sintoma. Entre elas, os sintomas alimentares na forma da bulimia e da anorexia. Aqui,

aquela experiência é transmitida, conceitualizada e alinhada com a experiência brasileira.

Faz-se também alusão a dispositivos de conversação com adolescentes nos bairros

periféricos da capital francesa, e essa experiência é colocada em trabalho de reflexão

sobre seu alcance, sobre seus limites, mas também sobre a esperança que pode se abrir

para muitos jovens que têm acesso a esses espaços.

 

É assim, constatamos: os psicanalistas também vão aos lugares marginais. Vão ali

recolher os restos, os resíduos, porque dessa matéria surge também a verdade de que se

trata para a psicanálise.

Porque a verdade que interessa à psicanálise surge do pequeno, do oculto, do

ínfimo, do acidental; nunca nasce do estrondoso, do espetacular, do que está na primeira

página.

Entrecruzamento de teoria e prática, de rigor conceitual e de escuta. Disso – e da

concatenação de outras pérolas descartadas – são feitas estas páginas.

 

Buenos Aires, dezembro de 2025

We send your product

Deliveries throughout the country

Pay as you like

Credit cards or cash

Buy safely

Your data always protected