Idioma próprio
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Os poemas reunidos neste livro revelam a orientação do autor em seu fazer poético, em
uma relação não só ao amor à letra, mas o intenso labor de esculpir seus versos e assim
colher o que do humano insiste e resiste em cada palavra.
Seu apelo à Musa para saber como “viver com o coração remendado” vai se ampliar a
cada página sem recuos em trazer a sagacidade erótica da língua, como ele mesmo
registra: “...pra não esquecer que tudo o que sinto é fome, sem-nome, sede e sonho e o
som dos escombros e sem sombras nem subterfúgios vontade volúpia sexo.”
A poética de Diogo nos diz de um corpo que, entre lascívia e impotência, interroga a
apropriação e mesmo a fusão com as coisas – naturais e criadas. Na evolução desse
trabalho, é possível perceber por onde caminha o poeta-crítico que sabe que fazer poesia
– como no verbo alemão dichten – implica reduzir, condensar.
Artífice “...num cotidiano que dói de tão cotidiano”, o autor nos diz da importância do
descanso dos poemas no exercício da escrita, para além do deliciar-se com a língua. O
poeta tem que se haver com a ânsia de expressão que, ao passar insistentemente pela
repetição e pelo corte, pode se desdobrar em seu avesso. Há que esculpir a língua com
calma e exigência, sem evitar o resgate do corpo sequestrado pela tinta e embalado por
palavras que ninam e despertam.
E, sempre, há que aventurar-se na busca e no encontro de um idioma próprio.
Cristina Vidigal, psicanalista
