Orelha de Sérgio Mattos:
No livro O corpo no espelho e a imagem do corpo nas redes sociais, lemos como a autora percebe e elabora com linguagem acessível, e exemplos interessantes vindos de várias conexões com a cultura, uma transformação real nas condições contemporâneas de constituição e circulação das imagens do corpo. A presença precoce e maciça das telas, da imagem de si, da possibilidade de rever-se, editar-se e se expor introduz algo que merece ser interrogado pela psicanálise. A autora sugere então uma operação delicada e atual: verificar como o efeito das redes sociais incide sobre a estrutura constitutiva – a do estágio de espelho– sem reproduzi-la, modificando profundamente o regime das imagens no qual o sujeito passa a habitar. O que acontece com a relação do sujeito à própria imagem quando o espelho deixa de ser apenas uma superfície diante da qual ele se vê e a imagem passa a acompanhá-lo, multiplicá-lo, registrá-lo e devolvê-lo incessantemente a si mesmo?
[...]
Prólogo de Domenico Cosenza:
Este livro de Cristina Medioli, como diz o título, gira em torno do tema do corpo no espelho e nas redes sociais. Retoma, assim, o tema do corpo, que já havia abordado em seu livro anterior e que assume, assim, em seu percurso, a função de campo de investigação central de suas reflexões. A autora articula o tema, como no livro anterior, "Versões do corpo: um percurso na psicanálise e na arte", de 2023, em um amplo espectro de referências que envolvem não apenas o âmbito clínico e psicanalítico, mas também a literatura e a arte em suas diferentes declinações, da pintura à fotografia e ao cinema. Desta vez, o faz orientando sua abordagem em torno de um ponto focal que atravessa todo o livro: trata-se do corpo em relação ao espelho e das antinomias que caracterizam essa relação desde as origens da nossa cultura (o mito de Narciso está aqui, em primeiro lugar, para nos recordar isso). Mas trata-se também – e nisso se caracteriza, em particular, a segunda parte do livro – dessa inédita versão do espelho que a civilização contemporânea nos apresenta por meio do salto tecnológico introduzido pela web, de sua influência pervasiva na vida cotidiana das novas (e não apenas das novas) gerações, de sua resposta às exigências impessoais do capitalismo contemporâneo e dos algoritmos que presidem o funcionamento da rede. [...]
