Ao menos uma vez na vida escute o canto das sereias

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Um posfácio que quer ser uma carta ao Rafael

 

Esta foi uma das tarefas mais difíceis da minha vida. Eu deveria escrever um Posfácio. E talvez o escrevesse como Posfácio mesmo, uns meses atrás. Mas hoje não dá mais. Hoje a morte do Rafael transmutou este texto e ele só pode ser algo que me faça conversar com ele. Se não pelo espírito, pela crença, ao menos pela palavra, que é, afinal, a alma de tudo o que sabemos.

Esta foi uma tarefa que eu não quis executar. Eu não desejei. Eu não imaginei. Nem por um segundo. Muito menos quando conheci o Rafael, naquela oficina de poesia, em um festival literário em Belo Horizonte. Ele chegou com olhos argutos, atentos a tudo o que eu fosse dizer sobre publicar um livro ou sobre escrever poemas. E eu nem sei se disse algo que prestasse. Mas eu conheci ali o Rafael. Falei algumas coisas pra ele e um tempo depois, vindo atrás das palavras, ele voltou. Quando aquele cara magro, calvo e alto entrou pela porta da sala de aula, eu me lembrei. Eu fiz cara de “eu te conheço” e ele deve ter sorrido de leve para mim, não sei. Eu sei que fiz logo contato com ele. “De onde eu te conheço?”. E aí a gente se reapresentou. Era da oficina de poesia e ele chegava mais, chegava para fazer graduação em Letras, bem na minha sala de aula. Vamos lá. Ele veio atrás das coisas que eu disse a ele. Palavras deixam as pessoas com a alma diferente, cheia de janelas.

Rafael foi meu aluno duas vezes. Todas elas atrás de poesia. Ele vinha falar de livros, de poetas, de pessoas. Ele deu sugestões. Ele ajudou a fazer um evento bonito no curso e esteve quase sempre à frente de tudo, com os colegas. Eu tinha a impressão de que era um cara amável. Porque ele me olhava amavelmente, mas sempre com certa sede ou fome ou ansiedade. Parecia que queria que eu dissesse algo que eu jamais diria. Um segredo ou o macete para a poesia. Dizia que me traria seus originais, que queria que eu os lesse e que eu comentasse. Eu dizia sempre sim. Mesmo quando eu não dizia nada, eu dizia sim.

Um dia, o Rafael conseguiu combinar um encontro comigo. Eu estava sempre despretensiosamente vestida. Eu tinha sempre uma mochila onde transportar os textos e as palavras dos meus alunos e das pessoas conhecidas. Mesmo dos não alunos, mas que

eu tinha como interlocutores muito especiais. Porque uma pessoa que se interessa por poesia, de verdade, neste mundo, só pode ser um pouco especial e fora da média.

Só sei que o Rafael arranjou um jeito de sair mais cedo do trabalho. Eu não sabia direito o que ele fazia. Eu sabia que não era coisa de escrever. Ele escrevia fora dos horários comerciais. E tinha muitas coisas escritas, meio escondidas, ou coisas que ele compartilhava com o Rogério, que era o amor dele. Foi então que eu comecei a ouvir falar do Rogério, que também é artista e que dava uns presentes lindíssimos pro Rafael.

Encontrei o Rafael na sala de reuniões da faculdade. Muito sem glamour, nós dois. Nossas malhas, nossas mochilas, nossos tênis. E ele estava tímido nesse dia. Não sei se ele me respeitava demais, daquele jeito que deixa a gente sempre

meio no pedestal. Não podia. Eu trazia o Rafael para o meu lado, sempre. Dizia a ele que eu leria, que eu comentaria.

Nesse dia, na mesa bege de uma sala muito sem graça, o Rafael chegou com dois envelopes pardos grandes. Ele me disse, com muito carinho pela papelada, que um envelope era o dos poemas que ele realmente curtia; o outro eram os poemas mais ou menos. Ele não curtia tanto, mas que eu talvez gostasse. E eu reparei logo no carimbo dos envelopes. Eu amo carimbos. E o Rafael tinha um, personalizado, e eu achei aquilo o cúmulo da delicadeza. Eu pensava: “Esse cara é poeta”.

Peguei os envelopes. Tem de ser muito corajoso pra entregar a alguém seus poemas melhores e também os piores. Aqueles que você escreve mas não consegue resolver. Aqueles que saem esquisitinhos. Aqueles que você quase joga fora, mas que fica com pena. Pode ser que algum leitor goste. Era coragem, era confiança, era carinho.

E o Rafael falava de mim pro Rogério, que eu ainda não conhecia. E então eu trouxe para casa os envelopes carimbados de rosa pelo Rafael Rosa. E fiquei de ler os poemas que ele confiara a mim.

De vez em quando, no meio da correria, eu abria os envelopes, deixava os poemas como cartas na mesa, meio embaralhados. Respeitei muito a divisão do Rafael, os que ele curte e os que não. Mas aí um dia eu resolvi atrapalhar tudo e misturei os conteúdos dos dois envelopes e nunca mais eu soube direito o que o crivo do autor considerava bom ou meia boca. Eu era leitora, afinal.

E eu fique ali, com os envelopes do Rafa. Até que, um dia, o Rogério me ligou. Foi a primeira vez que eu ouvi a voz dele. E ele parecia calmo, mas era uma calma desanimada. Um sopro a menos, parecia. E o Rogério me disse que o Rafael não estava bem, que houvera um acidente e tal. Eu olhei em cima da mesa e pensei: “Coragem”.

Uns dias depois, o Rogério me ligou para dizer coisa pior. Nesse meio tempo, entre uma coisa e outra, eu fiquei pensando muito nos envelopes que o Rafael me deixara. O que fazer? Eu quis visitar o Rafa para dizer que havia lido, que estavam escolhidos e para perguntar o que fazer. Como iríamos programar o livro? O lançamento? A festa? Mas não dava. A notícia ruim que o Rogério me deu chegou antes da poesia, do livro, do retorno que eu precisava dar ao Rafa. Eu lamentei tanto, mas tanto. Poucas vezes eu me senti tão atrasada. Muito atrasada. Não era minuto, hora, segundo, dia, nada. Era uma vida inteira atrasada. Não vou dizer ao Rafa o que eu achei que deveria entrar ou sair do livro dele. Um livro futuro, um livro quimera. E agora? Como farei com esta conversa que a gente não teve? Não teve tempo de ter? Agora estamos separados por um fio que não sei onde fica.

O Rogério sabia que os textos do Rafael estavam sob a minha guarda. E eu queria entregá-los. Eu achava que o Rafael ia gostar de ver seus poemas restituídos. Mas com rabiscos, com canetadas, canetinhas, rasuras, vestígios de uma leitura. Mas não tive tempo. E então eu fui encontrar o Rogério para vermos o que fazer. E ele tinha mais poemas do Rafael, tirados do celular, das mensagens, de bilhetes que ele nem tivera tempo de entregar. O Rafael era poesia pura. Uma poesia leve, curta, cheia de ironia, uns relances sarcásticos também. Uma chama leminskiana, como muita gente, mas também uma temática gay muito corajosa, reflexiva e também bem humorada. Atrevida e desbocada. Uma poesia gillette. Cortante, fininha, com atitude de quem sabia se assumir. Uma poesia que reparava no mundo, mas não tinha medo algum dele. Parecia.

E o Rogério me deu uma honra imensa: separar os poemas do Rafa e ver como compor o livro que ele queria, desde aquela oficina lá na praça da Liberdade ou muito antes, quando eu ainda nem o conhecia. E aqui está um livro que a gente pensou que seria algo parecido com as coisas do Rafael, sem saber direito o que o crivo dele faria.

Não vou dizer que seja uma alegria, mas quero muito que este seja um jeito bem bonito de dizer ao Rafa que a poesia dele nos conectará, sempre.

 

Ana Elisa Ribeiro (Organizadora)