Clínica do resto, clínica do excesso, clínica da borda: uma experiência do Janela da Escuta
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Clínica do resto, clínica do excesso, clínica da borda: uma experiência do Janela da Escuta

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Uma janela que olha para o horizonte

Damasia Amadeo

O que quer dizer – e quais implicações têm para a psicanálise de orientação lacaniana, que segue o legado iniciado pelo sulco traçado por Freud na cultura – criar uma janela da escuta dentro da Universidade? Sabemos que a Universidade é atravessada pelo responde ao discurso universitário. E quanto a este discurso, Lacan nos adverte sobre o saber no lugar de comando, mas também sobre a produção de um sujeito dividido sob o imperativo de ter de saber sempre um pouco mais.

Por isso, a experiência clínica, como um laboratório de investigação do sujeito em sua singularidade, apresenta-se neste livro como um oxímoro afortunado que honra a psicanálise. E honra a Universidade. Freud buscava a todo custo incluir a psicanálise na ciência de sua época. E Lacan dobrou a aposta quando disse que, se os critérios da psicanálise não se ajustavam aos da ciência, então era preciso criar uma ciência que incluísse a psicanálise. É excessiva essa aspiração lacaniana com respeito à psicanálise e à ciência? Não, não é excessiva. O excessivo se apresenta hoje de outra maneira. Assistimos, em nossos dias, a uma clínica dos excessos, como indicam os autores desta coletânea, na qual teorizam, refletem, mostram sua clínica e tiram conclusões.

O excesso está por toda parte: excesso de consumo; excesso de demanda; excesso de diagnóstico; excesso de medicalização; excesso de violência nas formas de discriminação, de abuso de poder, de um suposto direito de se desfazer do diferente; excesso de drogas, de angústia; excesso de alimentação; excesso de tecnologia; excesso de informação – e a lista continua.

E o que se quer dizer quando aqui se afirma que o adolescente é um especialista, um expert de si mesmo? Não se quer dizer que ele seja um especialista que sabe sobre “si mesmo” – além de que sabe muito pouco fazer “consigo mesmo”. Janela da escuta lhe propõe algo diferente. Oferece-lhe a possibilidade de indagar na palavra e em seus efeitos, de ser salvo pela palavra, como diz um jovem trans que frequenta o espaço de atendimento. A palavra posta a circular lhe permite abrir outras janelas e vislumbrar outras paisagens; permite-lhe pintar, por si mesmo, novos cenários, diferentes daqueles que está acostumado a ver através de outras janelas: panópticas, moralistas, acusatórias, carcerárias.

E é graças a essa palavra e a essa escuta inédita, oferecidas por uma janela artesanal – mas nem por isso menos firme, nem menos assentada –, que ele poderá entrever o horizonte. E então, sim, poderá aprofundar seu saber-fazer a partir da palavra liberada, que lhe possibilita a escuta de um Outro que não é especialista, que não é expert em nada. Então, sim, ele, ou ela, ou como deseje e mais lhe agrade nomear-se, poderá tornar-se especialista de sua falta, especialista do vazio que contorna o excesso manifestado no sintoma, especialista da tenacidade em não se deixar aprisionar numa nomenclatura, num diagnóstico, numa nomeação escandalosa por sua insipidez, ominosa por sua temeridade.

Os adolescentes encontram no Janela da Escuta um espaço em que não são compreendidos, mas escutados. Porque, como diz Lacan – e isso é retomado de múltiplas maneiras nestas páginas –, o adolescente, o que menos quer, o que menos deseja, é ser compreendido. Ele quer ser respeitado em sua palavra e não ser infantilizado quando o outro se dirige a ele. Quer menos ainda ser julgado, coisificado ou protocolizado no novo vade mecum da psiquiatria em voga.

Este é um livro que reflete a clínica psicanalítica recolhida nas bordas, nas zonas periféricas, nos lugares de descarte, nos sítios saturados de expulsão social. E é aí que ela se instala, cria seu lar, abre sua porta e corre as cortinas para dar ar e luz à sua janela: lugar de escuta, de livre circulação da palavra. Em Milão, criam-se outros dispositivos voltados a tratar as novas formas do sintoma. Entre elas, os sintomas alimentares na forma da bulimia e da anorexia. Aqui, aquela experiência é transmitida, conceitualizada e alinhada com a experiência brasileira.

Faz-se também alusão a dispositivos de conversação com adolescentes nos bairros periféricos da capital francesa, e essa experiência é colocada em trabalho de reflexão sobre seu alcance, sobre seus limites, mas também sobre a esperança que pode se abrir para muitos jovens que têm acesso a esses espaços.

É assim, constatamos: os psicanalistas também vão aos lugares marginais. Vão ali recolher os restos, os resíduos, porque dessa matéria surge também a verdade de que se trata para a psicanálise. Porque a verdade que interessa à psicanálise surge do pequeno, do oculto, do ínfimo, do acidental; nunca nasce do estrondoso, do espetacular, do que está na primeira página. Entrecruzamento de teoria e prática, de rigor conceitual e de escuta. Disso – e da concatenação de outras pérolas descartadas – são feitas estas páginas.

Buenos Aires, dezembro de 2025

Autores

Andréa Chicri Torga Matiassi

Cristiane Barreto

Cristiane Grillo

Damasia Amadeo

Deborah Lemos Lobato de Araújo

Domenico Cosenza

Eliane Costa Dias

Fabián Fajnwaks

Fernando Linhares

Gisele Magalhães

Guilherme Augusto da Cruz

Helenice de Castro

Henrique Torres

Isabella Barbosa de Paiva Diniz

João Campos

Juliana Motta

Maria Wilma S. de Faria

Mateus Mou

Nádia Laguárdia de Lima

Oscar Reymundo

Patrícia Regina Guimarães

Patrícia Spyer Prates

Priscylla Cavalcanti Guedes Kjaer

Sandra Maria Espinha Oliveira

Silvia Coutinho.-

Silvia Grases

Valéria Barbosa

Vinício Araújo Martins

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