Foraclusão e suas dores: a poética de uma clínica

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A psicanálise propõe distintas considerações para o fenômeno das dores crônicas, conforme o contexto em que surgem, o tipo de estrutura do sujeito em questão, a função que exercem nessa mesma estrutura e o seu uso sintomático.”
Em Foraclusão e suas dores: a poética de uma clínica, Fábio Paes Barreto estuda a
relação entre dor crônica e psicoses, na perspectiva psicanalítica de autores, como Sigmund Freud, Jacques Lacan e Jacques-Alain Miller.
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É algo sabido, nos diz Freud, e tomado por evidente, que alguém que sofre de dor abandona seu interesse pelas coisas do mundo externo e até retira seu interesse libidinal de seus objetos amorosos, cessa de amar enquanto sofre. Contudo, Fábio Paes Barreto, em sua tese de doutorado que nos chega neste livro, diferencia a dor aguda, que pode ter uma função de alerta, da dor crônica, que pode dar corpo a um sujeito que não conseguiu fabricar sua consistência corporal por outros meios, notadamente, segundo Lacan, a imagem, construída no estádio do espelho, a fantasia, que articula o sujeito com seus objetos extraídos do corpo, ou o sinthoma, por meio do enodamento dos registros do simbólico, imaginário e real. Em uma época em que a despatologização da clínica está na ordem do dia, o livro de Fábio vem nos lembrar que a clínica psicanalítica pode prescindir das estruturas, com a condição de servir-se delas.
Assim, o diagnóstico de fibromialgia, tão comum como fonte de sofrimento de um grande número de falasseres hoje em dia, especialmente mulheres, convida-nos a explorar, em ínfimos detalhes, os índices estruturais que nos permitam orientar-nos no manejo da transferência. Fábio nos lembra de que um dos casos de Freud nos estudos sobre a histeria, o caso Elisabeth, poderia receber, hoje, o diagnóstico de fibromialgia, articulado ao sofrimento neurótico aindaexistente na conjunção do amor com a culpa que se manifesta no corpo. Entretanto, as conversões histéricas tornam-se cada vez mais raras e o declínio da função paterna, assim como o esgarçamento do simbólico, colocam-nos cada vez mais diante de casos nos quais a metáfora paterna já não opera, e o que se apresenta em toda a sua exuberância é a metonímia do gozo nas suas mais ordinárias formas, eventualmente extraordinárias.
Fábio percorre com destreza o saber da Psiquiatria clássica e as diversas conjunturas em que a dor pode se apresentar na clínica como um desafio ao saber médico. Ele nos alerta contra o furor sanandi que pode desamarrar um arranjo construído por um paciente, à custa de sua dor. Ele distingue a dor da angústia e os estatutos do corpo nas estruturas clínicas, assim como separa a dor crônica do fenômeno psicossomático, com o qual pode, no entanto, coexisir. Afinal, não devemos confundir as perturbações e as inibições neuróticas – como a cãibra do escritor, manifestação de um corpo erógeno – com as lesões psicossomáticas, tampouco com o retorno do gozo sobre o corpo onde não opera a significação fálica.
Fábio nos lembra, ainda, que o sintagma psicose ordinária, introduzido por Jacques-Alain Miller em 1998, não deve nos fazer crer em uma continuidade entre a neurose
e a psicose, mas em uma continuidade no campo das psicoses, o que lhe permite propor o termo “ordinarização da psicose” por meio da dor crônica, por exemplo. Essa ideia de Fábio ressoa em minha experiência e me incita a relatar um caso que sua tese me ajuda a ler: Uma paciente da rede municipal de saúde corria os médicos e os centros de saúde queixando-se de dores que migravam pelo corpo e solicitando exames e tratamentos que a aliviassem do seu sofrimento. O diagnóstico de fibromialgia não a satisfazia, pois os médicos lhe diziam que ela não tinha nada. Trazia inúmeros exames de imagem e chegava a exibir fotos tomando soro e medicamentos para sua dor. Finalmente, encontrou um psiquiatra que se interessou pela sua história, quis ver todos os exames e fez valer sua palavra. A relação transferencial de confiança fez com que a paciente saísse da repetição da queixa e contasse uma série de acontecimentos traumáticos, nos quais sempre estava em posição de objeto, maltratado e desacreditado pelo Outro. Foi, assim, possível começar a construir um mínimo de história, acolher a paciente e inseri-la em um discurso, tirando-a de sua errância pelos serviços de saúde. Se nos reportamos à maneira como Fábio nos propõe pensarmos as possibilidades de estabilização pelo sintoma como suplência ao nó desfeito pela soltura do imaginário, nos casos de dor crônica, podemos pensar que acolher e dar crédito à palavra dessa paciente estancou a metonímia do gozo e possibilitou uma mudança de discurso, embora ela continue a colocar-se como objeto a ser cuidado pelo Outro. A nomeação “fibromialgia” deixou de ser igual a “você não tem nada” e passou a ser um recurso para dar sustentação ao corpo, objeto de um outro olhar. A dor pode funcionar como uma prótese corporal, desde que um Outro a acolha e acredite nela. Fábio, com sua fina exposição sobre a topologia lacaniana, nos alerta sobre o enodamento rígido que está em jogo na psicose, ao contrário do enodamento borromeano, flexível, no campo da neurose. Assim, é preciso consentir a secretariar o doente, ele diz.
Com o recurso da clínica clássica das psicoses, que Fábio retoma em seu trabalho, e recorrendo ao “Efeito de retorno à psicose ordinária”, na aguda clareza de Jacques-Alain Miller, podemos nos perguntar se nessa apresentação da fibromialgia não seria possível reconhecer, por trás do diagnóstico de psicose ordinária, o corpo fragmentado da esquizofrenia, distinto do disfuncionamento corporal de uma histeria. Nem uma nem outra, nos tempos que correm, apresenta-se de maneira strondosa, mas seus murmúrios ainda clamam pela leitura daqueles que ainda têm o gosto pela clínica, que compartilho com Fábio. Um esforço de poesia pode tornar aceitável a dor que recobre a dor de existir tão presente em nossos dias. Fábio Paes Barreto, que enfrentou com coragem e determinação de viver a grave Covid-19, pela qual foi acometido durante o longo período de pandemia que afetou de maneira decisiva a todos nós, faz da publicação do seu livro uma maneira de enfrentar com dignidade as marcas que essa doença deixou nele. Com sua sutileza clínica, Fábio nos convida a ler um trabalho em que nos mostra que, como ele, cada um, das contingências da vida, faz seu sintoma, a dor e a delícia de ser o que é.