Plinio, o jovem: epístolas completas - vol. 3

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Se o monumental epistolário de Cícero, além de registrar muito de sua vida pessoal, documenta bem a dramática situação política em Roma no fim do período republicano em meados do século I a.C.; se as mais de cem epístolas de Sêneca a Lucílio mostram que ocupou artificiosamente o gênero epistolar para divulgar a filosofia estoica que professava, as epístolas de Plínio, o Jovem, constantes deste volume fazem um pouco disso tudo, mas realizam algo mais. Assim como em Cícero, lemos aqui epístolas que tratam da atuação de Plínio como advogado e orador em causas privadas, mas lemos outras que, não veiculando embora nenhuma filosofia particular, como fez Sêneca, possuem um caráter moral, como quando Plínio discorre sobre a sempre difícil questão dos escravos, cuja condição o incomoda muito porque a igual humanidade deles não o comove pouco, o que faz com que a uns ele alforrie, a outros dê liberdade (inclusive jurídica) no espaço da casa. E de modo semelhante percebemos o teor sapiencial das epístolas quando lemos o conselho de brandura que dá a um pai muito severo, as lições de vida que tira das enfermidades e a generosidade que recomenda no trato com os pobres.

 

Entretanto, Plínio realiza algo mais que Cícero e Sêneca quando apresenta matéria diferencial relativa à deles: justamente aquela que tem um quê de fait divers, de curiosidade, que então, vemos, também integra o mundo antigo, amiúde mencionado só para veicular o que é grandioso, grave e exemplar. Também há coisas pequenas na Antiguidade e Plínio trata delas aqui quando narra haver um fantasma numa casa abandonada, que arrasta correntes (primeira ocorrência dessa imagem nas letras), e o que se fez para que desaparecesse, ou quando descreve o singular Lago Vadimão, cujas ilhotas são móveis e flutuantes, ou quando narra a inundação do rio Tibre e os estragos que traz, mas principalmente quando narra a incrível história do golfinho de Hipona, na África, que se aproxima da praia para brincar com um menino e até se deixa cavalgar por ele enquanto é escoltado por outros golfinhos.

 

Tal como na poesia a afeição pelo pequeno e inesperado integra alguns poemas de Catulo e muitos epigramas de Marco Valério Marcial (ele mesmo contemporâneo de Plínio), assim também na prosa é principalmente nas epístolas de Plínio, o Jovem, que tal afeição encontra seu lugar.

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