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POESIA COMPLETA
A poesia de José Paulo Paes tem a rara capacidade de saciar o leitor em pouquíssimas linhas. Entre os poetas brasileiros do século XX, ele ficou conhecido como o mestre do epigrama — aquele tipo de poema curto e mordaz cuja matéria-prima é uma atenta observação do mundo e do ser humano. Ao descrever um shopping center, por exemplo, ele relembra o “Inferno” de Dante: “Pelos teus círculos/ vagamos sem rumo/ nós almas penadas/ do mundo do consumo”.
Muitas vezes, a ironia se volta contra o próprio autor, que declara ser o poeta mais importante da sua rua,mas confessa:“Mesmo porque a minha rua/ é curta”. Num brevíssimo jogo de palavras, José Paulo resumiu as regras principais da sua poética: “conciso? com siso/ prolixo? pro lixo”.
Mas a poesia da concisão, para ele, é também a da dúvida — palavra que, aliás, serve de título ao derradeiro poema, escrito na véspera de sua morte. Cético, não prometeu amar a Deus “sobre todas as coisas”, mas “em cada uma delas”, como quem opta com firmeza pelo mundo: “hás por certo de preferir um agnóstico fora do teu templo a um vendilhão dentro dele”.
Por muitas vezes, o poeta se armou com os recursos do sarcasmo e da sátira para denunciar o cinismo dos poderosos e a banalização da vida. De fato, não existe vício mais oposto a sua poesia do que a ganância. Até mesmo ao imaginar uma inscrição para o seu túmulo,ele optou pela parcimônia: “para quem pediu sempre tão pouco/ o nada é positivamente um exagero”.
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