[Pré-venda: Envios a partir do dia 24/08] Um passado a se realizar: a topologia temporal inconsciente

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O Relógio do Avesso

Vivemos sob a ditadura de Cronos, o tempo que devora seus filhos. Fomos ensinados que o tempo é uma linha reta, uma flecha implacável que parte de um passado morto em direção a um futuro incerto, deixando-nos um presente fugaz. No entanto, quem já se deparou com a insistência de um sintoma, com o retorno de um sonho ou com o susto de um trauma, sabe que essa geometria linear é uma ilusão reconfortante. O tempo da alma não corre; ele circula, dobra-se e, por vezes, estagna.

A pintura "A Persistência da Memória", de Salvador Dalí, com seus icônicos relógios derretidos, provoca uma profunda reflexão sobre a natureza do tempo e a percepção da realidade. Os relógios, que, tradicionalmente, simbolizam o controle e a ordem, se distorcem e se derretem, sugerindo que o tempo é mais relativo e fluido do que gostaríamos de acreditar. 

Este livro de Loren Costa Assim, cujo título já nos convoca ao paradoxo – Um passado a se realizar –, é um convite para abandonarmos a régua do tempo cronológico e mergulharmos na topologia do inconsciente. Aqui, o passado não é algo que ficou para trás, mas uma potência que aguarda, no futuro, o momento de ganhar existência. Como a autora nos demonstra com precisão teórica e sensibilidade poética, o inconsciente não guarda segredos em gavetas empoeiradas; ele é um "espaço-tempo" vivo, onde o "ontem" pode ser ressignificado por um encontro que ocorrerá "amanhã".

Ao longo destas páginas, somos guiados por um percurso que atravessa a física de Stephen Hawking e o cinema de Christopher Nolan, passando pelas trilhas neuronais de Freud e os nós topológicos de Lacan. A autora nos ensina que a memória não é um arquivo fiel, mas uma "bricolagem", uma ficção necessária que tentamos construir em torno do vazio deixado pelo trauma. O tempo psicanalítico é o tempo do “après-coup” – o só-depois. É o tempo da tartaruga de Zenão, que desafia Aquiles, e da Banda de Moebius, onde interior e exterior, antes e depois, são apenas faces de uma mesma superfície contínua.

Refletir sobre o tempo nesta obra é compreender que a repetição não é apenas a "mesmidade" do sofrimento, mas um apelo à diferença. Repetimos para tentar, enfim, escrever o que ainda não encontrou letras. Como o personagem Cooper, em Interestelar, flutuando atrás da estante de livros de sua própria vida, o sujeito do inconsciente tenta enviar sinais do futuro para o seu passado, na esperança de que um "ato" – analítico, artístico ou vital – possa finalmente fazer o tempo avançar.

Loren Costa Assim nos oferece mais do que um estudo técnico; ela nos entrega uma nova forma de ler a nossa própria história. Ao final desta leitura, você perceberá que o futuro não é o que vem depois, mas o lugar onde o seu passado terá a chance de, finalmente, se realizar.

Que este livro seja, para o leitor, esse "acontecimento" – o buraco de minhoca que permite o encontro com o que há de mais estrangeiro e, ao mesmo tempo, mais familiar em si mesmo.

O tempo está apenas começando. Ou seria terminando? Só o percurso dirá.

Pedro Castilho – psicanalista e professor da UFMG.

 

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