PRÉ-VENDA Psicanálise e sexuação: gozo, logo sou
Num tempo em que a palavra “gênero” invadiu o debate público com a força de uma evidência, o psicanalista Rogério Paes Henriques ousa fazer o movimento inverso: recuar ao real. Não ao real da biologia nem ao real da mística transcendental, mas ao real que Lacan nomeou como aquilo que não cessa de não se escrever – o sexual como impossível, hors-sens, fora do sentido, e hors-sexe, fora do sexo como norma. Com a seriedade de quem pensa a partir da clínica e a generosidade de quem nunca perde de vista o leitor, Henriques nos oferece um tratamento lúcido e apaixonante de uma erótica para nossos tempos, tomando como referência um curso do Jacques-Alain Miller.
Psicanálise e sexuação: gozo, logo sou percorre com rigor e elegância os grandes conceitos do ensino de Lacan – pulsão, objeto a, fantasia, função fálica, sinthoma –, sem perder de vista que é a vida amorosa e sexual que está em jogo. Numa travessia que vai de Freud a Lacan, iluminada a cada passo pela literatura – de Jorge Amado a Elena Ferrante –, o autor nos lembra que o sujeito não se autoriza de seu sexo senão de si mesmo, e que essa autorização é sempre uma escolha irrevogável, sem garantia e sem retorno.
Há uma ironia que Lacan não deixou de apontar: enquanto os homens disputam as mulheres como valores fálicos – a preocupação recaindo sobre o que elas representam ao olhar dos outros homens –, as mulheres os traem consigo mesmas. Com algo da solidão insondável de um mundo desabitado das palavras, o gozo feminino tem um parceiro que não fala as palavras do pai, mas o Outro – espectral, inapreensível, radicalmente outro.
Desse umbral, os destinos são múltiplos. Algumas, como Dona Flor, assumem para si essa traição e passeiam – langorosas, satisfeitas – pelas ruas do Pelourinho com seus dois maridos: o corpo que escorrega entre a bonança serena de Teodoro e o fogo inominável de Vadinho, sem que nenhum dos dois a esgote. Outras se devastam ao encontrar nesse limiar a angústia de não conseguir retomar os passos da castração. E o que dizer da perturbadora protagonista de Anticristo, de Lars Von Trier, que, ao experimentar o Outro gozo, torna-se incapaz de retornar e salvar seu bem fálico maior – o próprio filho?
Tantos destinos possíveis da sexualidade feminina que este livro generoso e necessário nos permite vislumbrar. Uma obra à altura do tema que aborda: feita para pensar a psicanálise lacaniana nos dias de hoje, com a profundidade que o real exige e a abertura que o leitor merece.
Marcelo Veras
(Psicanalista – EBP/AMP. Psiquiatra da UFBA)
