SACODE A POEIRA

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“É só encarando a dor que conseguiremos fazê-la ir embora.” Com essas palavras, bell hooks inicia sua análise meticulosa daquilo que considera um dos grandes problemas que ainda afetam o povo negro: uma autoestima ferida, persistente desde os tempos da escravidão. Por que tantas pessoas pretas — mesmo as mais belas, as mais ricas, as mais inteligentes, as mais talentosas — vivem num estado constante de ansiedade, medo e vergonha? Em Sacode a poeira, a autora propõe uma análise que busca romper com um estado coletivo de negação, defendendo a ideia de que a ausência de autoestima entre as pessoas negras tornou-se uma epidemia que precisa ser combatida, e de que nunca é tarde demais para encontrar o amor-próprio. Com seu olhar crítico e compreensão que vem da experiência, bell hooks sugere que cuidar da saúde mental e da alma pode ser a base para a cura de toda uma comunidade — e indica por onde podemos começar.

 

Depois de escutar seguidas confissões de autodepreciação e autodesconfiança, fui compelida a encarar a realidade por trás desses testemunhos. Eu queria fazer alguma coisa, encontrar as explicações e as soluções. Pesquisa atrás de pesquisa, sempre caía na autoestima. Os negros tiveram de se haver coletivamente com essa questão desde a escravidão até os dias de hoje. […] Nós, pessoas pretas, temos relutado em romper com a negação e encarar o fato de que nossa baixa autoestima paralisante alcançou patamares epidêmicos. […] Temos focado tanto a maneira como os outros ferem nossa autoestima que acabamos por ignorar as feridas autoinfligidas. Para cuidar desses machucados, para aprender como abraçar o bem-estar emocional sem nos autossabotar, precisamos prestar mais atenção à questão do respeito próprio. Precisamos colocar a questão da autoestima em primeiro plano. […] nós, pessoas pretas, sabemos que nossa autoestima coletiva machucada ainda não sarou. Sabemos que estamos sofrendo. E é só encarando a dor que conseguiremos fazê-la ir embora.

 

— bell hooks, na introdução

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