São Bernardo

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São Bernardo é o segundo romance de Graciliano Ramos, publicado pela primeira vez em 1934, quando o autor já contava com mais de 40 anos. O livro narra a ascensão e queda de um proprietário rural no Nordeste brasileiro, região que passava por uma modernização capitalista nas relações sociais.

 

O que chama a atenção aqui é o fato de acompanharmos também a formação da subjetividade desse proprietário – marcada por traços históricos da realidade brasileira, como a violência e a herança escravocrata – e como ela se expressa na própria forma em que o romance é composto; a história de Paulo Honório é narrada por ele mesmo – narrador-personagem – e os traços de sua subjetividade ficam marcados na maneira como ele escreve, como bem destaca o professor João Luiz Lafetá no ensaio que compõe este volume.

 

Embora a hegemonia do agronegócio tenha alterado as características da acumulação no campo, sobretudo desde o início dos anos 2000, o poder e a lógica do latifúndio – e as formas de dominação e subjetividade próprias a ele – seguem vigentes na realidade do campo, que pode ser mais bem compreendida a partir da história e das relações estabelecidas entre Paulo Honório, Madalena, seu Ribeiro, Casimiro, dona Glória e outros personagens de São Bernardo.

 

Nesse sentido, podemos afirmar que a obra de Graciliano Ramos e este romance em específico seguem atuais e nos ajudam a entender melhor a realidade em que vivemos, ao mesmo tempo que suscita em nós sentimentos de indignação que nos movem a lutar por uma sociedade mais justa.

 

“O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada.

 

Sol, chuva, noites de insônia, cálculos, combinações, violências, perigos – e nem sequer me resta a ilusão de ter realizado obra proveitosa. O jardim, a horta, o pomar – abandonados; os marrecos-de-pequim – mortos; o algodão, a mamona – secando. E as cercas dos vizinhos, inimigos ferozes, avançam.

 

Hoje não canto nem rio. Se me vejo ao espelho, a dureza da boca e a dureza dos olhos me descontentam.”

 

— Trecho por Graciliano Ramos

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