A tentação ecofascista: Ecologia e extrema direita

A tentação ecofascista: Ecologia e extrema direita

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É possível relacionar a extrema direita à defesa do meio ambiente? Essa junção pode parecer estranha e nada óbvia, mas já é observável em diferentes países e grupos. Em A tentação ecofascista: ecologia e extrema direita, Pierre Madelin apresenta essa ligação e demonstra de que forma ela está presente em ações, teorias e falas ao redor do mundo.

 

Demografia, imigração, controle de natalidade e negação à globalização são alguns dos assuntos que permeiam o imaginário ecofascista: “Como há grandes chances de que a articulação entre temáticas ambientais e temáticas identitárias, ainda embrionária, se intensifique nos próximos anos, à medida que as crises ambientais e migratórias se agravarem, espero que este livro, situado na fronteira da história das ideias, da cartografia intelectual e da prospectiva política, possa preencher essa lacuna e constituir uma fonte útil para todas as pessoas que desejem compreender melhor os desafios relacionados a essa temática”, escreve o autor.

 

Madelin inicia a obra apresentando os diferentes sentidos dados a esse conceito na história das ideias ecológicas e segue mostrando que o ecofascismo não tem de fato uma história política e sim uma história intelectual. Casos contemporâneos são tratados nos capítulos seguintes, com enfoque na França e nos Estados Unidos. O autor também questiona a possibilidade de o movimento inspirar, em um futuro próximo, governos ou regimes políticos ecofascistas.

 

“Tentarei identificar os desafios intelectuais e políticos que as ideologias ecofascistas impõem às ecologias políticas que se preocupam em articular a defesa do mundo não humano com uma radicalidade emancipatória para os próprios seres humanos”, escreve.

 

Trechos

 

“Consequentemente, o ecofascismo deveria ser entendido como uma ideologia segundo a qual existem seres supranumerários que comprometem não apenas a capacidade de regeneração da natureza, mas também o bem-estar dos demais membros da sociedade, e dos quais, portanto, pode ser necessário se livrar em nome do ‘bem comum’; uma tendência a ser considerada de que populações específicas, que se acredita que perturbam os equilíbrios da biosfera por suas práticas ou por seu número, devem ser eliminadas. Dado o racismo persistente nas sociedades contemporâneas, contudo, podemos apostar que essas populações seriam em sua maioria racializadas; assim, devemos acrescentar ao ecofascismo uma quarta dimensão, a saber, o racismo e o identitarismo, desde já perceptíveis em muitas das alianças contemporâneas entre o verde e o marrom. Essa dimensão, muito pouco presente nas análises que expusemos até aqui, ocupará um espaço primordial neste livro”.

 

“Uma ideologia ecofascista considera, portanto, que a defesa da identidade de uma comunidade política depende da preservação ecológica de seu território, da alocação preferencial dos recursos naturais que são extraídos dele à população autóctone e da estigmatização socioecológica dos grupos ‘alóctones’. Estes são percebidos como uma ameaça e um ‘perigo sem precedentes’ não só para a identidade do grupo de acolhida – ou mesmo para sua sobrevivência física: eles são ‘uma ameaça à própria possibilidade de continuar existindo física e culturalmente –, mas também para sua matriz territorial, da qual eles seriam os agentes de destruição’. A Grande Substituição, noção à qual voltaremos no capítulo 3, não é mais somente um ‘etnocídio’ e um ‘genocídio por substituição’, como diz Renaud Camus: ela se torna também um ‘ecocídio'. Como sempre acontece nas ideologias de extrema direita, a fobia da alteridade toma a forma de uma angústia da alteração, porque, ‘se a extrema direita parece se alimentar do ódio do outro (em especial do estrangeiro), por trás desse ódio se esconde um impulso afetivo mais fundamental: o medo ou, mais exatamente, a angústia da perda de si’”.

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