As escritas trans e a Letra do nome próprio no corpo
€13,83
Posfácio
O instigante campo de pesquisa pelo qual Souto Maior Sanabio nos conduziu neste livro ―as escritas trans e a letra do nome próprio no corpo― levou-nos ao provérbio latino, “as palavras voam, os escritos permanecem”. A alternância entre o que é passageiro e o que é permanente, entre a transitoriedade e a eternidade, fez parte das conversas entre Freud (1916/1974) e um jovem poeta, para o qual o valor a ser atribuído às coisas viria da sua durabilidade; o transitório perderia em valor pela sua efemeridade. Ao que Freud argumenta, a vida já contém em si a morte, ela só é vida a este preço e, é isto, precisamente, o que a torna preciosa. Ou seja, a transitoriedade acrescenta valor às coisas!
Com a psicanálise lacaniana, as falas, assim como os semblantes, vacilam, equivocam, deslizam, voam e fazem voar, ao passo que o real é aquilo que retorna sempre ao mesmo lugar. Semblante e real, dois termos fundamentais, portanto.
No horizonte de uma sociedade neoliberal como a nossa, os semblantes giram, giram rápido e vão se substituindo uns aos outros! Isso torna imperativa a busca por algo que permaneça. É onde, mais além do falado, busca-se escrever, fixar-se. E, tal como os semblantes, a escrita nos conduz ao corpo, às suas vestimentas bem como às suas vicissitudes pulsionais. Contrapondo-se à movimentação dos semblantes, o real ―real da letra― retorna sempre ao mesmo lugar. E, neste caso, esse lugar é o corpo.
Márcia Rosa
UFMG – EBP/AMP
