Tomar parte no enxame

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O novo livro de poemas de Mônica de Aquino começa com um duplo deslocamento. Primeiro, ela toma a perspectiva de um animal para olhar os humanos. Segundo, no lugar do boi meditativo que vê os homens no famoso poema de seu conterrâneo Carlos Drummond de Andrade, agora é um polvo, ainda mais crítico, que observa — e disseca — quem pensa observá-lo unilateralmente. Daí em diante, cada bicho que surge nas páginas de Tomar parte no enxame, de formigas a dinossauros, de peixes a galinhas, mesmo sob o escrutínio de cientistas, dá sempre a impressão de que nos olha de volta.

 

Dividido em quatro seções, o livro apresenta uma fauna variadíssima, por meio da qual uma longa história das espécies ilumina as encruzilhadas da nossa própria espécie. Para a poeta, “escrever é escavar” e, em seus versos, é possível (re)aprender que a poesia é uma forma de olhar longamente para as coisas, para cada detalhe da vida, detendo-se até extrair o que há de mais recôndito e, por vezes, incômodo sob a casca de tudo.

 

E esse olhar é, essencialmente, sua forma de participação. Como diz Florencia Garramuño, a investigação cuidadosa que cada palavra implica é um modo de “inserir-se na colmeia que é o mundo, intervir nela, participando desse enredo de seres humanos e não humanos”. Em Tomar parte no enxame, “cada abelha é uma célula// a colônia é o verdadeiro animal”. Ler, aqui, é tomar parte: saber-se mel. E veneno.

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