Freud inaugura um novo olhar sobre a infância, colocando-a como fundadora da experiência humana, na qual se inicia o confronto com seus principais enigmas, como os do sexo e da existência.
Os autores que escrevem neste livro se dedicaram a tomar a experiência da psicanálise com a criança como motor da investigação e da formação enquanto analistas, a partir da sua própria experiência.
Seguindo as poetisas Lya Luft, que diz que a infância é o chão que pisamos a vida inteira, e Louise Glück, para quem “a gente olha o mundo uma só vez, durante a infância, o resto é lembrança”, Freud traz à luz toda uma vida pulsional atravessada pela linguagem, marcando o corpo onde ressoa a complexidade das relações subjetivas presentes para a criança desde seu nascimento. Saber, desejo e gozo serão oferecidos à criança. O analista poderá ser um parceiro que proporciona ao sujeito dizer e ler seu sintoma, algo que resta por ser dito ou elaborado, um parceiro que leva uma criança a construir e poder contar com um sintoma. Na clínica com a criança, também convivemos com o silêncio, com o indizível, com o impossível de suportar e com os mal-entendidos presentes na vida da criança e de seus pais, de sua família, reflexos do mal-estar da civilização.
Na orientação lacaniana, vemos uma conversão de perspectiva. Para além de tomar a mãe como objeto de amor e de desejo, nos deparamos com a possibilidade da mãe tomar a criança como um objeto que se realiza no real e que pode ocupar o lugar de objeto a em seu fantasma.
Sabemos que não existe especificidade de uma psicanálise realizada com uma criança, que é um analisante por inteiro. A experiência da psicanálise com a criança nos leva aos limites e aos avanços da teoria e da prática analítica na atualidade.
Trabalhamos neste livro as temáticas mais sensíveis extraídas da experiência psicanalítica com crianças, bem como as questões teóricas que fundamentam nossa prática. A contribuição dos textos de psicanalistas, aqui representados por nossos colegas da Associação Mundial de Psicanálise, Éric Laurent, Alexandre Stevens, Marie-Hélène Brousse e Nohemí Brown, coordenadora da Nova Rede Cereda Brasil, constitui, para nós, uma bússola da orientação lacaniana que sustenta e move o desejo pela causa analítica. Entre as muitas questões que atravessam a clínica psicanalítica com crianças na atualidade, abordaremos a presença massiva do discurso da ciência se contrapondo ao discurso psicanalítico, a medicalização da infância e a batalha travada pelo tratamento psicanalítico do autismo. Como nos aponta Laurent (2011, p. 43): “Nossa posição é a de manter a prática da análise com crianças, colocando-nos no bom lugar, frente a este contexto global. Se soubermos fazê-lo, então não há dúvida - e verifica-se nos resultados da análise com crianças de hoje -, não há dúvidas de que, com o apoio das crianças, podemos seguir nossa orientação no discurso”.
A ética da psicanálise sustenta nossa aposta de devolver a palavra às crianças para ouvir o que elas nos ensinam sobre o real em jogo nesta experiência.
Inês Seabra Abreu Rocha (EBP/AMP)
