Autômatos

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CONTRESCRITURAS

Longo, o sofista, autor de um dos primeiros exemplares do gênero que mais tarde se denominou “romance”, abre seu livro declarando que nada mais faz que antigráphein uma graphé, o que se pode traduzir como “contrescrever uma pintura” — como acontece naquele caso, em que se narram os amores de Dáfnis e Cloé —, mas também, em outros, seria lícito verter por “contrescrever um escrito”, já que gráphein, em grego, significa tanto pintar quanto escrever, o mesmo valendo para graphé, tanto pintura como escritura.

Isso me vem a propósito deste novo livro de Juliano Klevanskis na responsabilidade de escrever-lhe (/pintar-lhe?) um prefácio, gênero especialmente dicultoso, mesmo que a maioria o julgue banal, crendo que lhe bastariam umas poucas linhas, dous ou três adjetivos, mais uma reminiscência clássica (como, aliás, z no parágrafo precedente). Insisto na diculdade porque os leitores costumam esperar de quem prefacia alguma pista para a aventura de se embrenhar no livro (quando não alguma profecia). Ciente de tal responsabilidade, cumpro meu dever respondendo a quem perguntar que livro é este: são contrescrituras.

De imediato o são porque praticam aquilo que Julia Kristeva chamou de “literatura em segundo grau”, noutros termos, não só se escrevem em vista de outros textos, como anal acontece com qualquer deles, mas escancaram esse traço dialógico no uso de todas as formas secundárias: alusões, citações, traduções, epígrafes, bricola gens, hibridizações, paráfrases, pastiches e paródias. Em segundo grau, também porque logo o leitor constatará que é o último dos procedimentos que dá o tom à obra, recheada daquele humor revestido de ironia próprio das escritas paralelas — o que vale para situações insólitas, como em “Agente inltrada”, tanto quanto para versões não menos desconcertantes de textos consagrados.

Isso inclui as mais sagradas das escrituras, de que o fragmento de “Deuteronômio” dá prova cabal: “, sendo assim, não creia com plena fé que o autor é o criador de todos os personagens do texto” — “não creia com plena fé que as obras Ilíada e Odisseia, que se encontram no cânone universal, foram escritas por Homero”, porque, “anal, quem foi Homero? Beowulf, Bíblia, Corão, Épico de Gilgamesh, Mahabharata e Mil e uma noites provavelmente foram diversas vezes alteradas” e “nunca haverá consenso a respeito dos pensamentos e dos atos de seus autores; quiçá da existência deles”. Ao m e ao cabo, são volumes perdidos, mercê de “falha no servidor de armazenamento”, restando ao narrador prometer que “estou trabalhando para recuperar o que for possível e publicar no próximo livro”.

Em tal contexto de incertezas e de coisas que se perdem e se projetam — ou se projetam só porque se perdem —, mesmo os mais básicos princípios de identidade não propriamente se diluem, mas se imiscuem entre si em aproximações e estranhamentos. Assim, o casamento entre as famílias Sefarad e Ashkenaz se torna campo de batalha desde quando a sogra se escandaliza com o vestido colorido da noiva de Toledo (sendo escandalizar-se próprio das sogras), o que se desdobra em querelas sobre quem é mais sábio (Rambam ou Rashi) e hábitos alimentares: “A família do noivo serve frango assado, batatas, legumes” (mais Apfelstrudel), “a da noiva, cuscuz marroquino com cordeiro picante”.

Contudo, não se engane o leitor. Mesmo nas situações menos correntes — como o zoológico de humanos e a máquina não do tempo, mas de espaço — o que subjaz são releituras que se desdobram em contrescrituras. Por todos os indícios, ninguém duvidará que Juliano Klevanskis seja um leitor contumaz. Tal qual as personagens de “Superação”, os quais, em testemunhos colhidos no LA (isto é: “Literatos Anônimos”), narram suas agruras. Manoel, criador de conteúdo, Viviany, colecionadora de curtidas, Cleiton, organizador de emojis, todos eles foram vítimas do mesmo vício. No último caso, camos sabendo como “desde muito cedo tive contato com livros de autoajuda, considerados uma droga leve, mas aos dezesseis anos comecei a experimentar livros ilícitos, quando entrei na faculdade”, até quando, mais tarde e não sem alguma resistência, “a leitura se descontrolou: z carteirinha em bibliotecas”!

Sabedor que prefácios não podem substituir o prazer de ler, paro já aqui. Não sem antes lembrar o adágio borgiano, que parece se aplicar bem ao presente caso: todo texto é rascunho, daí prestar-se a contrescrituras, pois texto denitivo se deve só à religião ou ao cansaço. Como descobre o curioso querubim de O livro da vida: “mesmo na Biblioteca Eterna sempre haverá espaço para o inesperado”.

Neste Autômatos, é com a sempre inesperada vitalidade da literatura, nas hábeis mãos de um autor incansável, que se fartará o leitor curioso.

Jacyntho Lins Brandão

Presidente da Academia Mineira de Letras

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